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15.1.21

O intuito desse post é resgatar algumas memórias do que rolou nesses seis meses sendo mãe. Registrar aqui aleatoriedades dessa maternagem de primeira viagem, perrengues que parecem ter sido vividos em outra vida já. Enfim, aproveitar antes que a fada da amnésia materna apareça porque muita coisa eu já nem lembro mais.

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Dia desses a Mariana, minha irmã, ainda me lembrou da semana que ficou aqui em casa para nos ajudar. Sara devia ter uns 20 dias apenas e, apesar de home office, Toni já tinha voltado a trabalhar. Ele passou a sua licença de míseros cinco dias literalmente dentro na maternidade — os dois primeiros basicamente cuidando da Sara e de mim porque eu estava só o corpo por conta da hemorragia que tive — e os poucos dias de férias cuidando de mim e da casa pra eu poder cuidar da dino-sara. 

Ah, o puerpério. Mari lembrou das várias vezes que me viu dormindo sentada, com a cabeça pendurada, enquanto Sara mamava. Naquela época queria ter lido o trecho de um livro, que uma mãe compartilhou recentemente no grupo de mães que participo, sobre aproveitar pra cochilar durante a amamentação. 

Talvez eu teria aproveitado melhor esse período e descansado mais. Talvez. O problema é que eu não teria na memória algumas das vezes que ri de nervoso por acordar e não lembrar de ter visto a Sara dormir primeiro.

Nessa mesma semana em que a Mari ficou aqui, lá comecinho de agosto, aconteceu uma outra cena que sempre me faz rir e que basicamente virou o nosso meme interno. Já era a terceira noite dela dormindo comigo no sofá (ou pelo menos a gente tentava né) quando precisei acordá-la de madrugada para que ela segurasse a Sara um pouco e eu pudesse ir ao banheiro. A coitada claramente exausta só perguntou sem nem abrir os olhos direito: – é pra sacudir ou trocar fralda?

Isso me faz lembrar que o primeiro mês eu passei todinho — sim, todinho — no sofá e consegui assistir a série Good Girls durante as longas madrugadas em que passei acordada. Não lembro se assisti os primeiros episódios mas lembro que assisti os últimos. 

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Lembro da noite que ordenhei pra guardar um pouco de leite e assim poder dormir um pouco. Toni e Mari cuidaram da Sara durante as maravilhosas quatro horas de sono que pude desfrutar, deitada na minha cama. Não sabia se eu estava mais feliz por aproveitar isso depois de sei lá quantos dias sem dormir ou se a felicidade da minha lombar era maior por fugir um pouco do sofá. 

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Quando eu já tinha passado a dormir no quarto, literalmente sendo cama da Sara, passei por uma situação que toda vez que eu lembro não sei se me acho patética ou se apenas rio da piada que é a minha vida. Quem me acompanha há um bom tempo já sabe da belíssima vez em que mijei na cama do Toni. Pois bem, a situação se repete. Dessa vez bem menos cômica e infelizmente sem a proteção da tal calcinha-abençoada-que-segura-xixi que me acompanhou no outro episódio.

Sara dormia em cima de mim, como acabei de citar, enquanto eu era cama dela. Ficava lá parada feito uma múmia enquanto a bonita contemplava o próprio soninho. O sono dela fluía super bem assim então deus me free fazer qualquer coisa que pudesse acordá-la. Porém, numa belíssima noite em que, aparentemente, não esvaziei a bexiga o suficiente, acordei no meio da madruga encharcada. Isso mesmo, encharcada. Sara? Pleníssima no seu soninho da beleza. O que eu fiz? O que me pareceu muitíssimo óbvio no momento, tirei as peças que estavam encharcadas (shorts e calcinha) enquanto ela dormia no meu peito e separei nossas cobertas pra ela não correr o risco de se molhar (meu problema, eu que lute). Segui a lógica do joga uma toalha em cima que pela manhã trocamos a roupa de cama com o que tinha no alcance das mãos, cobertas. Sara acordou no horário de sempre como se nada tivesse acontecido e eu me dei conta da situação ridícula em que me encontrava ao ver minhas roupas no chão do quarto. 

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A #mãeemfuga teve seus momentos.

Minhas aulas começaram a Sara tinha recém feito um mês. Pensei em trancar algumas vezes mas o Toni sempre falava "– calma, as aulas são remotas, vai sentindo...". Então decidi ir sentindo, dar algumas chances. O problema é que elas começavam no nosso pior horário, depois das 18h. Era o momento que a Sara mais ficava agitada, irritada. 

As primeiras semanas foram um caos, era super estressante. Até eu me dar conta de que não fazia sentido ela ficar comigo durante esse período. O pai que lute no longo período de 1h30m, que era mais ou menos o que durava a aula. Período longo pra quem precisa cuidar de uma bebê irritada por estar com sono, coisa que a gente foi entender melhor tempo depois. Período curtíssimo pra quem precisa de um tempo sozinha. 

Então durante as aulas eu me permitia a fuga. Ia para o quarto com meu notebook e fones de ouvido. Assim assistia a aula ou simplesmente contemplava a minha própria existência enquanto o professor falava. Assim sobrevivi ao semestre um pouco mais sã. Aos professores, mil desculpas, a gente faz o que pode. 

E porque toda fuga é pouca, lembro também da melhor faxina que fiz na vida. E, veja bem, quando digo melhor não sei nem se foi a que as coisas ficaram mais limpas, mas com certeza foi a que a sensação de satisfação foi absurdamente maior. Que foi quando mais uma vez aderi ao o pai que lute e virei a casa do avesso fazendo a maior faxina. Nem sei quantas horas passei dentro do box do banheiro esfregando rejunte, só sei que nunca fiquei tão feliz esfregando rejunte. Afinal, era só o rejunte e eu.

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Começo de novembro precisamos levar dino-sara no hospital. Foi um dia corrido e estressante de exames. A pequena estava estressada, nós estávamos estressados. Um combo de correria, medo, exames invasivos, cansaço e exaustão emocional. Lembro de sair do hospital em direção ao carro, onde iríamos esperar mais longas duas horas para ter o resultado do exame que tínhamos acabado de fazer, depois de muuuuuito segurar o choro em todas as últimas etapas desse dia, e simplesmente entregar a Sara para o Toni porque eu precisava desabar. E meudeus, como eu desabei.

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Ainda na maternidade, só fui tomar banho no final de segundo dia do pós-parto, depois de passar um dia inteiro sem desmaiar. Ainda assim, só fui me sentir viva de fato no terceiro dia, depois de tomar ferro direto na veia. Um atraso na medicação por conta do caos que se instalou na maternidade considerando o contexto pandemia & virada de lua. 

Nas duas noites seguintes eu já não aguentava mais não estar em casa e estar tantos dias sem dormir. As dores físicas e emocionais da amamentação eu já senti lá mesmo. Chorei de exaustão algumas vezes. Cochilei enquanto me ordenhavam para a Sara mamar algumas outras. Lembro que o melhor momento do dia era a chegada do café da manhã, como se ele resetasse todo o caos da noite anterior. Lembro de chorar de alívio ao enfim receber a alta. 

Sara não atingia o nível glicêmico exigido e precisamos ficar um dia a mais, quando na verdade parecia que estávamos há muito mais tempo. Lembro da sensação de paz que deu quando começamos a arrumar as coisas para ir embora, na paz que senti no caminho, na paz ao chegar em casa. Lembro de ficar assustada no segundo dia em casa quando enfim meu leite desceu e Sara apagou por cinco horas depois de mamar. Mandei um áudio desesperada pra uma amiga perguntando se era normal porque aparentemente eu tinha dopado a minha nenê.

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As vezes paro pra lembrar do meu parto, da loucura que foi. Parece que foi em outra vida já. Lembro que demorou pra cair a ficha. Lembro de ir da banheira até a maca, depois de Sara nascer, e ver aquele sangue todo escorrer. Demorei pra entender o que estava acontecendo. Do Toni assustado (coitado não teve nem tempo de digerir o parto), da correria das enfermeiras. Lembro de sentir a tensão na voz delas enquanto me vestiam uma fralda e pensar: caramba, como o Toni vai criar a Sara sozinho? Lembro de acordar tempo depois e ficar assustada com a cor dos meus pés. Sangue seco aos olhos de uma míope recém-parida parece ainda mais macabro. Depois disso comi o melhor misto quente da minha vida e ri quando, a caminho do quarto numa cadeira de rodas, a recepcionista me olhou assustada: – ué, não acabasse de entrar lá? É, não fazia nem duas horas que respondia ao questionário dela entre as contrações.

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Sabe-se lá o que essa memória ainda guarda desses seis meses que mais parecem uma vida inteira. Talvez eu ainda traga pra cá outras memórias. As fotografias guardadas, principalmente dos primeiros meses, ainda me dizem muito coisa. 

Aos que leram até aqui, obrigada. Talvez meu cérebro tenha derretido na terceira vez que revisei esse texto. Então por hoje é só.

12.1.21

Olha quem inventou de participar novamente do projeto 52 weeks com a maior cara de pau, como se não tivesse feito isso anos atrás e falhado miseravelmente. Culpo a Kaffeina por sem querer plantar a sementinha na rede ao lado. Miga, obrigada!

Ridícula que sou, porque não basta fingir normalidade, ainda começo o projeto fazendo gambiarra mesmo. Tirei print de um vídeo sem culpa depois de me dar conta que perdi o hábito de fotografar na horizontal. Aparentemente esse blog virou um grande apanhado de stories do intagram salvos na minha galeria.

Começo então o projeto com esse belíssimo registro forjado — oi print de vídeo — da nossa folia no intervalo do almoço. É, acho que é pra isso que vou (tentar) participar mais uma vez desse projeto. Que ele sirva como exercício para memória e para o coração. Que seja meu álbum de figurinhas, que me faça ver algo bom toda semana, mesmo que um breve registro de uma semana intensa. Que fique a memória, o aprendizado de semanas difíceis. Sempre tem algo pra guardar. 

Na semana 1 de 52 eu guardo a leveza que a vida com filhos também pode proporcionar. Sim, nem só de exaustão vive essa mãe ♥

&

Bônus: vamos dançar?

11.1.21


Ter voltado a trabalhar resgatou o ânimo que eu havia perdido nos últimos meses. Algo que tem sido relativamente tranquilo por temos um rede de apoio para equilibrar as coisas. Esse respiro que eu precisava me permite focar no meu trabalho de forma mais leve, consigo aproveitar a breve soneca da pequena no horário de almoço pra ler um pouco e até trocar umas fraldas sem o peso da obrigação diária e repetitiva porque no fundo sinto que estou usando aquele momento pra dar um cheiro no meu nenê e matar um pouquinho da saudade. 

O dia parece passar mais rápido, sem a ansiedade de vê-lo terminar. Cada momento de trabalho, de leitura, de interação com a pequena, parece durar o tempo que precisa durar. Piscamos e lá estou no quarto colocando-a para dormir, depois de termos tomado banho e jantado. Em dias realmente bons, daqueles que sinto ter aproveitado ao máximo, depois dela ter pego no sono ainda consigo escapar do quarto para aproveitar as últimas horinhas do dia curtindo as minhas coisas. Em outros, também bons, me entrego ao cansaço e acabo dormindo com a pequena.


A mudança na rotina que faz a gente olhar pra cada momento de modo diferente, sentir de modo diferente. Responder um email e, antes de seguir para o próximo, fazer uma breve pausa pra trocar uma fralda. Dançar para acalmar antes da soneca do almoço ou comemorar a soneca bem sucedida. Tomar um susto ao ver a sobrinha que entrou despercebida na nossa sala porque "— ela qué esse binquedo aqui, vim pega pa ela".

Que bom que tem sido assim. Quando penso na vida antes disso tudo, tento lembrar que a verdade é que o cansaço estava ali também. A diferença é que agora temos um nenê todinho pra beijar.