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11.9.20


Não sei dizer bem o motivo, mas desde a descoberta da gravidez o parto não era algo que me assustava. Toni me olhava incrédulo: — como assim tu tá tranquila quanto ao parto? Eu ainda brincava sobre as chances dele desmaiar durante o processo por conta da aflição que era pra ele pensar nisso.

Então veio a pandemia e essa paz toda ameaçou me abandonar. Comecei a realmente pensar num cenário pós apocalíptico nos hospitais e de que, com a possibilidade de não poder ser acompanhada nem por ele e nem pela doula, eu estaria totalmente a mercê da equipe e do caos que pairasse no dia que Sara resolvesse vir ao mundo. É, talvez eu tenha assistido filmes demais de ficção, talvez tenha sido os hormônios, talvez seja o efeito 2020 na gente mesmo. Vai saber...

Nesse ponto foi crucial ter uma doula pra compartilhar meus anseios, pra discutir as possibilidades, mesmo pensando no pior cenário. Nas loucuras da vida a Cris Melo já havia sido minha colega de classe no ensino médio e, anos depois, quando fiquei sabendo da profissão dela, de alguma forma tinha certeza de que ela seria a minha escolha quando o momento chegasse. Consegui então resgatar a paz que me habitava e assim foi todo o restante da gestação. 

Até que...

No domingo, uma semana antes da data prevista de parto, ainda fui dormir animada porque tinha resolvido parar de trabalhar e então teria esse período pra descansar. Deitei próximo da meia noite, pensando que não precisaria acordar cedo, tomaria meus cafés com calma e teria um bom tempo pra ficar no sofá com as pernas pra cima, fazendo o que bem entendesse. Ah, a inocência.

Fui acordada perto das 3:00 da manhã por uma contração, para uma das minhas clássicas idas ao banheiro na madrugada, e voltei pra cama. As tais contrações de treinamento, assim eu achava. Isso era tão ritual que eu logo pegava no sono e pela manhã nem sabia mais quantas vezes tinha feito isso no decorrer da noite — sim, muitas vezes. Só que, antes mesmo que eu pegasse no sono pra valer, veio outra contração, mais outra e outra. Caramba, isso tá mesmo acontecendo?

Pensei em esperar as contrações se manterem regulares por pelo menos uma hora antes de acordar o Toni, mas como o coitado já estava no modo alerta há mais de um mês (e cada ida ao banheiro ele já achava que tinha chegado a hora), não deu pra disfarçar. É engraçado lembrar desse momento porque eu ainda não acreditava no que estava acontecendo. Ficava pensando que, poxa, eu ainda tinha uma semana sabe? Além do peso na consciência porque a doula também tinha decidido tirar uma semaninha pra descansar. Risos nervosos.

Por mim, apesar de já estar há mais de uma hora com contrações regulares e aceitando que Sarinha tinha cancelado meus planos de descanso, ainda não via necessidade de chamar a doula. Acho que é aquela mania de achar chato incomodar os outros, pensava que podia ser um falso trabalho de parto, sei lá. Só que a aflição do Toni já era tanta que, para tranquiliza-lo, pedi que ligasse pra ela.

Por indicação da doula fui para o chuveiro com o intuito de aliviar as dores das contrações. Ela ainda demoraria um pouco pra chegar e essa fase do trabalho de parto poderia durar longas horas. Lembrei que tínhamos arrumado apenas as coisas da Sara e aproveitei isso pra tirar a atenção do Toni de toda a ansiedade que ele estava mergulhado. Acho que no fim isso me ajudou também a tirar o foco das contrações porque eu precisava me concentrar no que tinha que pedir para ele colocar na bolsa.

É muito louco como a gente perde total noção do tempo. Pisquei e já era quase 5:00. Continuava achando engraçado todo aquele cenário, o Toni super apreensivo, cunhada e sogra surtando de animação e nervosismo e eu rindo porque as contrações não me deixavam comer uma bolacha.

A doula tentou tranquilizar todos, não era hora de correr para a maternidade e devíamos descansar. Pelo nervosismo do Toni e da minha sogra já estaríamos na maternidade nas primeiras contrações e eu provavelmente teria matado os dois porque nos mandariam de volta pra casa e seria uma morte lenta passar mais de uma vez por contrações na estrada. 

Obviamente não conseguimos dormir, Toni nervoso demais e minhas contrações estavam mais intensas e com intervalos ainda menores. Já a doula conseguiu descansar um pouco e eu me senti menos culpada por tê-la acordado tão cedo. Falei que o sofá era bom né Cris? 

Com a intensificação das contrações senti necessidade de voltar para o chuveiro e fiquei por um tempo lá até perder a paciência (ariana é foda viu, ô miséria de paciência). Sai do chuveiro e a doula veio conversar comigo novamente, ver como estavam as contrações. Ela me tranquilizou com a possibilidade do trabalho de parto demorar para evoluir e, apesar de ter cansado do chuveiro, sabia que isso era normal e estava tranquila com a possibilidade de ter que esperar mais. Sim, tranquila & impaciente. Só que, para a nossa surpresa, tudo indicava que já era o momento de irmos para a maternidade.

Apesar de querer matar alguém a cada buraco que passávamos durante as contrações, me peguei rindo de novo da situação — caramba, isso tá acontecendo mesmo — enquanto a doula tranquilizava o Toni de que, apesar do trânsito, chegaríamos a tempo na maternidade. Ainda pensei na loucura que seria se não desse tempo, imagina parir no carro? Ri de nervoso, obviamente.

Era quase 8:00 da manhã quando chegamos na maternidade, 9cm de dilatação. Ainda não sentia necessidade de vocalizar e, enquanto preparavam a sala de parto, a doula me fazia rir falando para o doutor que, naquela altura do campeonato, ela já estaria aos berros. Lembrar desse momento me faz pensar na minha percepção da dor e que a gente não tem muita noção até viver experiências tão intensas como essa. Podemos ler os mais variados relatos de partos e ainda assim não saberemos como será o nosso até passar por ele. 

Já na sala de parto, começa o momento em que qualquer resquício de romantização cai por terra. Digo isso no meu caso, claro. Cada gestante passará pela própria experiência. Só que comigo foi bizarra essa quebra do romantismo porque eu não pensei sobre ser bonito, sobre ter luzes, sobre ter música, sobre o momento em que pegaria Sara no colo. Não pensei nisso antes e nem durante. Eu apenas focava em cada contração, em cada etapa, como se eu tivesse ativado o meu modo prático e só. Lets do it e ponto.

Quase com dilatação total, se é que já não estava — a memória começa a ter uns furos quando começamos a entrar na partolândia — e eu só conseguia pensar se daria tempo de encher a banheira. Pensava que, se no chuveiro a dor aliviava, provavelmente na banheira seria bom também. A ideia de parir ali me parecia interessante.

Já na banheira, entre contrações — nessa etapa eu já tinha cansado de vocalizar e resolvi passar pelas contrações em silêncio mesmo (olha a falta de paciência dessa ariana aqui de novo) —, e comecei a sentir muita vontade de ir no banheiro. Já tinha lido sobre isso, sobre o expulsivo e sobre também, de fato, ter vontade de evacuar. Na hora a gente não sabe bem o que é e, sinceramente, acho que não dá nem tempo de sentir vergonha. É normal e tudo bem. Eis que então, na segunda ida ao banheiro, pleníssima sentada no vaso sanitário, a bolsa estoura. Só consigo lembrar da doula desesperada falando pra eu voltar para a banheira porque a Sara não podia nascer ali. 

Novamente na banheira e Sarinha já livre da possibilidade de nascer no vaso sanitário (desculpa filha), a vontade de vocalizar tinha voltado com tudo. Lembro de olhar o Toni de relance, olhando assustado para a doula enquanto ela o tranquilizava. Apesar de ter imaginado a Sara nascendo dentro da água como todo vídeo de parto na banheira que a gente vê, a vontade de fazer força veio antes mesmo que eu conseguisse me agachar. Toni já tinha conseguido ver os cabelinhos dela e como se toda aquela experiência intensa e louca dependesse disso, urrei com a força de toda a minha alma. 

Sara nasceu as 9:56 do dia 20 de julho de 2020, pleníssima numa manhã de segunda-feira.

Foi colocada no meu colo, nesse momento eu já estava sentada na banheira, mas minha ficha só caiu quando percebi o Toni encostando a cabeça em mim enquanto chorava emocionado. Caramba, a gente tem uma filha! 

Mesmo emocionado, Toni também ainda estava em choque. Me pego rindo quando lembro dele nervoso cortando o cordão umbilical depois do doutor falar: – Sim, vai cortar o cordão. A mãe fez todo o trabalho pesado e não vais fazer nada? Acho que é uma montanha-russa de sensações tão intensa que até mesmo o pai é nocauteado.

Após isso não lembro de muita coisa desse dia. Acabei tendo uma hemorragia após o parto e, como perdi muito sangue, acho que passei a maior parte do dia apagada. Lembro da doula colocando Sarinha no meu peito e nos ajudando com a amamentação, já que eu não tinha forças nem para mexer meus braços. Lembro do Toni apreensivo, ainda em choque com o parto e me vendo naquele estado, sem saber como as coisas desenrolariam. Lembro de me sentir muito bem amparada pelo doutor e as enfermeiras. Lembro também do melhor misto-quente que comi na vida, logo depois de recuperar meus sentidos. Acho que a ideia de quase morrer depois de parir deixa a gente faminta mesmo.

Relembrando esse momento, parece um pouco caótico. Ainda assim, parece que foi como tinha que ser. Olho com muito carinho pra esse dia e arrisco dizer que foi perfeito. Assim, sem tirar nem por. Talvez menos a parte da hemorragia que depois ainda me fez perder um belíssimo prato de almondegas com feijão do almoço por ter desmaiado novamente, talvez. Não me senti transbordando amor da maternidade, não me senti mãe imediatamente. Ainda assim, foi perfeito. Foi intenso, foi real, foi meu, foi nosso, foi como tinha que ser. 

Foi assim que renascemos. É clichê e foi cru, mas foi assim mesmo. Foi assim que Sarinha nasceu.


Gratidão eterna por ter escolhido a Cris para ser minha doula e fazer parte desse momento. Acredito que minha tranquilidade se manteve firme por conta de todo apoio e dedicação dela. Foi essencial para que eu acreditasse que era mais do que capaz de vivenciar essa coisa louca e intensa que é parir. Sabia que, seja lá como as coisas acontecessem, tanto o Toni quanto eu estaríamos bem amparados durante a experiência mais louca das nossas vidas. Cris, muuuuito obrigada!

8.9.20

Minha ideia inicial era escrever sobre outra coisa nesse post, pra ser bem sincera. Queria falar um pouco sobre a nova Barbara, a que não é apenas mãe da dino-sara. Fiquei esses primeiros dias de setembro olhando para as poucas fotos que tentei tirar de mim sem Sarinha agarrada, mas o texto não se desenvolvia nem na minha cabeça. Talvez ainda seja cedo pra pensar sobre isso.

Resolvi deixar a temática de lado e parei pra olhar os últimos registros feitos. No passado eu me cobraria muito mais na hora de eternizar momentos, mas com o advento de Sara entrei pra turma de mães que fazem um milhão de registros da cria sem pensar muito e guarda para si. Hmm, essa aqui está (milimetricamente) diferente dessa outra, acho que vou guardar as duas mesmo. Ainda bem. 
31.8.20


Domingo pela manhã acordei e me peguei rindo dessa cena. Sara e eu morrendo de preguiça pra acordar — Toni provavelmente já devia ter entrado no quarto algumas vezes na tentativa de me avisar que o café estava pronto, o berço dela cheio de roupas de várias lavagens ainda na esperança de serem guardadas, o coque desmontado depois do amarrador de cabelo ir parar sei lá aonde deixando esse belíssimo penteado e eu ainda de óculos. É, achei que tinha tirado ele depois do tetê da madrugada. 

Aliás, seguimos com o total de 01 noite de sono da Sarinha no berço e talvez a utilidade do berço nessa casa continue sendo servir de apoio para as roupas lavadas. A diferença dos primeiros trinta dias é que agora somos nós duas que aproveitamos a cama, para a alegria da minha coluna, enquanto papai se estica no sofá que, para a sorte dele, é muito bom. 


Acredito que pelo combo licença maternidade & quarentena, os dias acabam parecendo repetições dos dias anteriores. Muito nenê grudado na mãe, as únicas poucas saídas de casa são para consultas, uma infinidade de fotos de cantos bagunçados da casa, das caretas da pequena e dessa mãe aparentemente sempre descabelada, muitas horas sentada no sofá com Sarinha e minhas nádegas dormentes que lutem. 

Em alguns dias isso me deixa triste, essas repetições que não parecem ter fim. Saudade de quando o tempo era meu e eu podia passar horas na frente do computador, saudade das leituras, de maratonar séries sem ser interrompida, saudade do tédio. Saudade de receber e visitar família e amigos, saudade de bater perna por ai, de sair de casa, de aglomerar.

Em outros dias eu me agarro na nova rotina, nas novas experiências, nas pequenas grandes conquistas da Sarinha e nas nossas também, afinal, aprendemos o tempo todo com ela. Tento adaptar meus antigos passatempos no novo caos. Blogar quando dá, maratonar séries já vistas mesmo, assistir filmes novos sem medo de ter que pausar infinitas vezes.


No começo disso tudo, porque esses quarenta e poucos dias pós dino-sara parecem que fazem anos já, eu tinha a sensação de que os dias ruins não acabariam ou seriam grande maioria. Tentava me apegar ao mantra do "vai passar" e, por mais que eu quisesse, era difícil acreditar. Eu me perguntava o tempo todo: ok, vai passar, mas quando? 

A parte louca é que vai passando mesmo. Os dias ruins continuam, surgem novos dias ruins, mas vai passando. Afinal, surgem novos dias bons também. E nessas horas eu entendo quando outras mães me dizem sem pensar duas vezes, vai passar e passa mesmo.


Dias em que o sling acalma, que a roupa fofa serve mesmo que ainda folgada, que a neném dorme tranquila, que a mãe acorda com o coração leve, que vê graça na bagunça, que dá vontade de esmagar a nenê.


Esse post, por exemplo, só vai sair porque testei usar o notebook no sofá aproveitando a calmaria de algumas mamadas e duas belíssimas sonecas que milagrosamente Sara tirou hoje. Ainda assim, levei um dia quase inteiro pra finalizar e tudo bem. Assim a gente vai vivendo essa nova fase. 

E pra finalizar esse post, fica esse registro que fiz começo de agosto na semana que minha irmã veio passar aqui em casa pra nos ajudar. Tia & dinda babona, contemplando a pequena no seu banho de sol pós troca de fralda. Ah, como eu amo essa foto ♥