Esse post faz parte da seleção da nossa comunidade de blogagem coletiva ENTREBLOGS criada com o intuito de compartilhar nossas perspectivas sobre os mesmos assuntos.
Clube de Leitura, 03.2026 📚 TRÊS, de Valérie Perrin.
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Sendo uma pessoa que não consome resenhas e que é completamente influenciada pelas emoções que os livros causam nas pessoas, provavelmente irei seguir o mesmo surto nesse post.
Mesmo quando a pessoa odeia e dá seus motivos, há chances de eu querer ler.
Aliás, antes de começar esse post gostaria de já deixar claro que essa não é uma resenha comum. Provavelmente será uma grande bagunça emocional, do que senti lendo, das vozes da minha cabeça e as várias abas que se abriram nela, correndo o risco de cometer spoilers.
Dito isso, leia por conta e risco, preferencialmente se você já leu e já tirou as próprias conclusões.
Ciente e deseja continuar?
Senta que lá vem vozes da minha cabeça.
Se pensar rápido eu só consigo resumir a minha relação com esse livro em: uma grande piada.
Em 3% eu já me senti super envolvida com a história, aquela certeza de que ia gostar muito e devorar o livro rápido. Esse foi um belo tapa na cara, descobrir que assim como quando eu lia H.P. Lovecraft, eu posso gostar de um livro e demorar 84 anos para finalizar a leitura.
Veja bem, eu estou imersa nos últimos dois anos no ritmo obsessivo de ler romantasias que me fazem ler descontroladamente em pouco tempo não importa quantas páginas tenham. Fiquei tão acostumada com esse ritmo frenético — não necessariamente correto e muito menos saudável mas serviu ao seu propósito: me fazer sentir menos desgostosa de algumas camadas da vida — que quando me vi gostando de TRÊS e irritantemente emperrada na leitura eu fiquei com muita vontade de jogar ele pela janela. Não fiz porque as vezes sou teimosa com os desafios pessoais em que me meto, os amigos entreblogers estavam surtando de amores pelo livro (eu sou curiosa!1!1!1!!1!) e estava me sentindo muitíssimo confusa com o fato de gostar muito da história e não conseguir engatar na leitura.
No decorrer da leitura eu fui criando um ódio imenso por um personagem. Criei suspeitas que agora, lendo um trecho da conversa no nosso grupo de fofocas literárias do Entreblogs, nem me lembro mais qual era. Cheguei num trecho em específico que quase tive um treco, um enterro citado que me fez sofrer por antecedência, eu já gostava de personagens demais. Relendo esse trecho hoje, inclusive, notei que ele citava muito mais cenas que iriam se desenrolar só lá na frente.
Aliás, compartilharei nesse post trechos que não necessariamente serão trabalhados aqui mas que de alguma forma me fizeram pensar. As vezes as vozes não precisam sair da minha cabeça.
– Do que você mais gostou? Das girafas ou dos leões?
– Do trem.
– Por quê?
– Porque ele é livre. Vai aonde quer.
É uma experiência muito interessante ler um livro com personagens tão reais. Como se a gente entendesse as vozes da cabeça dos personagens porque muitas dessas vozes já foram nossas em algum momento.
Nina passando lápis de olho e Etienne achando sujo me fez teletransportar para a Barbara na 8ª série e automaticamente lembrar da cara de estranhamento de um amigo. É essa a experiência do outro? 😂 Foi engraçado olhar para o passado pelos olhos da vivência alheia — mesmo que seja a vivência de um personagem.
É graças a esses momentos de alívio que a gente aguenta o tranco nesse jogo de Tetris da vida.
Marquei muitos trechos do livro, algo que acho nunca ter feito em outras leituras, e é muito doido como até o simples fato de reler esses trechos mudam toda a perspectiva da coisa. Um trecho que quando lido me remeteu a outras coisas e que hoje, sabendo o desenrolar da história, me fazem pensar sobre outras camadas.
Adrien se questiona sobre seu próprio muro, aquele que o separa de si mesmo, o muro atrás do qual se esconde desde que começou a respirar: qual é a altura desse muro?
Senti raiva em um pedaço da linha do tempo, como se a história não tivesse o direito de tomar um rumo que destruísse o que foi construído. Como ousa ser tão real a vida e os rumos que ela e as relações dão? Como ousa doer na gente assim?
Foi uma leitura que tomou muitas lágrimas de mim, pelos personagens, pelas lembranças, pelas reflexões que me causaram.
– Você acredita que às vezes a vida é mais generosa para compensar tudo o que ela tirou?
Gostei que muitos pensamentos compartilhados eram crus, sem os floreios românticos que muitas romantasias fazem (e tudo bem).
Quando gostamos do cheiro da pele do outro, quando o identificamos como algo familiar, membro de uma mesma categoria sensorial, temos todo o resto.
Foi um livro que ao mesmo tempo em que me envolvia na própria trama e me tinha nas mãos curiosa para saber o desenrolar da história, mesmo que no meu próprio ritmo, me fez refletir sobre tantas camadas da (minha) vida. Relações amorosas, familiares, de como nossas bases relacionais são construídas com base no que vivenciamos. Como o desenrolar dessas relações criam marcas, anulam, potencializam e remodelam a nossa vida.
Mesmo que eu não tenha vivido as mesmas relações que a Nina, vejo muito dessas conexões e angústias em outras relações minhas. Essa construção de quem somos, o acordar do que basta, o afastamento do que anulou tanto da gente. A sensação de que o tempo passou e perdemos tanto.
Não sou a favor de falar que a dor nos torna mais forte, de que mar calmo não faz bom marinheiro. Não queremos ser malditos marinheiros. A vida acontece independente do que a gente faz com as nossas perdas, dores e força. Não importa se vira gatilho, crise, barreira. A vida acontece independente da frase coach da outra rede.
Mas nem só de reflexões densas vive um leitor. Sendo alguém que escreveu cartas mas também as fez na porcaria dos computadores, tive o prazer de gargalhar com o seguinte trecho:
Ele não entende nada de tecnologia. Dizem que é o progresso. Agora, as pessoas enviam fax e digital no Minitel. Se isso continuar, vão começar a enviar cartas nas porcarias dos computadores e os carteiros não servirão mais para nada.
Outros trechos me fizeram pensar na minha relação com algumas músicas, na vontade que eu tenho de ler O Perfume tendo visto apenas o filme e em como é divertido achar referências de outras coisas assistidas.
A música eletrônica o põe em um estado de torpor que alivia seu espírito atormentado.
Tem um trecho que citam uma tradição inglesa de casamento. Eu conhecia essa tradição por causa da série Outlander.
A tradição diz que a noiva tenha um objeto azul, um objeto novo, um objeto velho e um objeto emprestado no dia do seu casamento.
Outros trechos me fizeram pensar em como poucas pessoas realmente nos conhecem. Nossas manias, gostos, nossos silêncios. Se pensarmos que vivemos numa época tão caótica de urgências e excesso de informações, são poucos que realmente sabem quando o brilho no nosso olhar é de alegria ou champanhe.
A leitura me levou para muitos lugares e, por mais que tenha causado muitas sensações e desconfortos, é curioso ver como pode ser tão crua e real em tantas partes. São pessoas crescendo juntas, com suas próprias histórias e dores, aprendendo a viver suas próprias questões dentro da própria realidade. O que me faz pensar como é fácil odiarmos personagens e ações quando não precisamos nos colocar no lugar do outro. Quando em nossas próprias vidas as relações se constroem cruamente também, e lidamos da forma que podemos com o que temos. As vezes com mais afinco, energia, empatia, as vezes menos. Seja com os outros ou com nós mesmos.
Ele evita pensar que, talvez, devesse ter feito algo. E acaba dizendo a si mesmo que cada um tem sua vida, que é impossível salvar o mundo inteiro. Que as pessoas também têm a que salvar a si mesmas.
Enfim, já me prolonguei demais e sinto que ainda continuarei digerindo essa leitura com o passar do tempo.
– "Morrer" é com um r ou dois?
(...)
– Dois. Mas "viver" é mais fácil, tem um r só.
Valérie Perrin, você me paga.
Vocês já tiveram enxaqueca depois de chorar?
Aos amigos entreblogers, obrigada por sugerirem muitos livros diferentes para o nosso clube de leitura. Sem esse subprojeto do Entreblogs eu provavelmente ainda estaria agarrada apenas a dopamina das romantasias. É bom viver temporariamente em mundos fantasiosos (eu queria muito ter um dragão mas não dá pra ter tudo na vida), mas também é importante viver essas histórias tão mais próximas da realidade.
Agora vocês me dão licença que, antes de encarar o próximo livro do clube, precisarei de uma boa farofada fantasiosa com criaturas, batalhas e hot porque Emmanuel não sofreu o suficiente para o meu gosto e preciso realinhar meu carisma.
Ameei ler esse livro com vocês. E amei esperar você terminar. Hahaha..
ResponderExcluirMuitas partes do seu texto me tocaram, uma delas foi essa aqui:
"Não sou a favor de falar que a dor nos torna mais forte, de que mar calmo não faz bom marinheiro. Não queremos ser malditos marinheiros. "
Eu já falei tanto desse livro e tenho espalhado a palavra de Três por onde passo. No futuro eu quero voltar pra esse livro e pros nossos posts pra revisitar todas essas sensações e incluir novas.
O próximo é puxado. Mas eu estou gostando muito de sair da minha zona de conforto. Ano passado mais da metade dos livros que eu li foram livros sobre assassinatos kkkkk
Ba, adorei a sua não resenha. Ainda aceito fofoca sobre Três.
Um beijo!
fofocas literárias, bom demais
ExcluirEu sou outra aqui que aceita começar uma boa fofoca sobre o livro, perdi ela ao vivo quando também estava me rolando em boas romantasias.
ResponderExcluirEu acho foda demais que por mais que nós duas tenhamos lido o mesmo livro, os pontos que nos chamaram atenção acabaram sendo a diferentes. Isis é o bacana nesse tipo diferente de livro... esses detalhes pequenos que mostram que a vida real que acontece por aí é péssima pra umas pessoas, que certas pessoas más tipo o Emmanuel não sofrem tanto quanto deveriam (isso quando sofrem algo) e que nem todo mundo tem esse privilégio de ter pessoas maravilhosas por perto pra se reerguer e superar traumas juntos.
Eu não entendi 100% o final do livro e no fundo nem sei se isso é relevante. É um livro difícil, mas muito bom.
e no fim a gente nem precisa entender tudo né? acho que a leitura é sempre algo muito particular e só isso já vale demais
ExcluirEU não me conforme que a morte desse personagem tão querido foi o que me fez perceber que eu tava realmente gostando do livro, e aí qual a primeira coisa que fiz? Fui lá e soltei isso no grupo antes de você saber, que RÍDICULO, sabe?
ResponderExcluirÉ incrível demais a construção de personagens da Valerie e como todo mundo ali é beeeem cinza, e ainda assim é possível amar alguns e odiar outros porque, no fim, aceitar que as pessoas são imperfeitas não nos tira o direito de sentir algo forte por elas...
Adorei os trechos que você destacou, aaaaah, se não fosse tão longo talvez eu leria, dessa vez com os olhos, hahahah, de novo!
eu acho que aquele grupo e os spoilers foram a coisa mais divertida desse processo de ler algo novo em conjunto HAHAHAHA sério, eu AMEI
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