Tem quem prefira ler antes de assistir algo inspirado na história e eu acho isso sensacional. Só que comigo, na maioria dos casos, eu resolvo ler determinados livros depois da experiência de assisti-los. Fico tão envolvida que sinto que assistir não é suficiente e preciso repetir a experiência por outros meios. Foi o que aconteceu com Planeta dos Macacos1, com Viagem ao Centro da Terra, com O Hobbit, Senhor dos Anéis... e agora com O Perfume.
Aviso — Se você ainda não leu ou não assistiu ao filme, saiba que provavelmente compartilharei minha experiência com spoilers de ambas as experiências. Leia por conta e risco 👀
O Perfume, a história de um assassino
Não me recordo quando exatamente assisti ao filme, mas lembro que foi uma experiência muitíssimo interessante. Na época entrou para a minha lista de favoritos fácil. Fiquei deslumbrada tamanha a estranheza que a história entregava. Chega a ser engraçado como, na primeira vez que assisti e que só percebi isso hoje revendo o filme, o que mais me marcou foi o começo e o fim da história. O nascimento de Grenouille, as experiências sensoriais dele, o grande Baldini — que eu lembrava ser interpretado pelo ator Dustin Hoffman — e, esquecendo completamente do meio da jornada do nosso protagonista, o julgamento. Mesmo não sendo de fato o final da trama, foi uma cena que me marcou muito.
Agora, enfim tendo a experiência de revisitar essa história por meio da leitura graças ao clube do livro do Entreblogs — escolhida mediante ameaça votação para ser a leitura de julho —, posso afirmar que não apenas o filme mas agora também o livro fazem parte da minha lista de favoritos.
França, século XVIII. O recém-nascido Jean-Baptiste Grenouille é abandonado pela mãe junto a restos de peixes em um mercado parisiense. Desprovido do cheiro que todo ser humano exala e rejeitado pela sociedade que o considera um ser abominável, o menino Grenouille cresce sobrevivendo ao repúdio, a acidentes e a doenças.
Durante a juventude, ele descobre ser dotado de um dom sublime ― uma extraordinária sensibilidade olfativa ― e passa a buscar a essência perfeita, o perfume que lhe falta para atingir o que mais almeja.2
O livro, que naturalmente foi lido com os vícios da memória por eu ter assistido ao filme primeiro, na Parte I entregou uma experiência tão boa quanto se não melhor do que quando assisti. Foi divertidíssimo resgatar cenas visuais enquanto lia parágrafo a parágrafo descrevendo as infinidades de cheiros da época, conhecer mais da história de Baldini que eu lembrava uma coisa ou outra da sua personalidade. Eu lembrava da atuação do ator Dustin, suas expressões e choque, mas lembrava muito pouco das camadas da sua história enquanto mestre perfumista.
“As referências de Süskind ao cheiro são tão fortes que as páginas parecem estar impregnadas.” ― The Times
A Parte II me passou a sensação de um grandíssimo what the fuck porque eu não lembrava de nada disso acontecendo no filme e me deu um certo cansaço tamanha viagem. Ao mesmo tempo que, parando para rever o filme antes mesmo de ler a Parte III, me fez pensar que mesmo que meio exageradamente3 esse momento de introspecção e revelação aconteça com o personagem, consegui compreender mais do filme, porque sim parte dessa história foi para as telas também. No filme esse desejo e incômodo por trás do que ele parece buscar parece ser discutido tão sutilmente que quando assisti pela primeira vez nem notei. A experiência, livro e filme, se tornaram ainda melhores depois que entendi isso.
Na Parte III volto a resgatar as memórias do filme durante a leitura, com a sensação de que filme e livro voltam a se conversar. Não em tudo, mas em muita coisa.
Parando pra analisar melhor agora, é inegável, os personagens são muito mais detalhados no livro do que no filme. A escrita do Patrick consegue entregar camadas, de tantos personagens, que o filme não consegue. O que torna a experiência, de ler depois de assistir, ainda mais interessante.
Talvez, se eu tivesse lido antes de ter assistido, teria gostado menos justamente por sentir que o filme não entrega tudo o que o livro consegue — mesmo sendo, pra mim, um filme incrível. Como a minha experiência foi o inverso disso, lendo a história de um filme que gostei demais, é como se algo que eu já achava bom conseguisse ficar ainda melhor.
"O assassino parecia ser inatingível, incorpóreo como um espírito."
Patrick Süskind, O perfume.
Já sobre coisas não tão relevantes, a primeira cena em que é apresentado o ateliê de Madame Arnulfi, eu só conseguia pensar na crise de rinite que me daria, apesar do lugar ser tão bonito recheado das mais diversas flores. Assim como, lá no começo do livro, fiquei pensando como a ama que cuidou de Grenouille bebê achar completamente esquisito um bebê não ter cheiro de bebê. Imagine cheirar a cabecinha de um bebê e não sentir nada? Cruzes.
No trecho da história em que somos apresentados também ao item mais desejado de Grenouille, me pego surpresa por não me recordar de que era Alan Rickman (nosso querido Snape, em Harry Potter) que atuava como pai de Laure. Este homem!
Voltando para detalhes mais relevantes, achei curiosa a representação no filme de como os ricos e respeitados burgueses e nobres, eram cavaleiros esclarecidos e anticlericais até que algo atrapalhasse os seus negócios, aí sim recorriam ao bispo, à igreja, para que este enfim amaldiçoasse e banisse o temido monstro. Aos ricos a fé é conveniente apenas como arma para controlar e acalmar os ânimos.
Quanto a Alan Rickman, o ator parecia cansado com a incompetência e burrice alheia tanto quando Antonie Richis ou quando sendo Snape. Fiquei feliz que certas tentações e pensamentos intrusivos dele foram detalhados apenas no livro, teria sido uma experiência nada agradável no filme.
Sem mais divagações...
O livro aborda muitas camadas da época, das crenças, da moral e de tudo o que falta em Grenouille, o que vai além do cheiro. Algo que é muito melhor trabalhado e descrito no livro do que no filme. Até a Parte IV, sendo a parte final e por mais parecida que seja entre um e outro, é muito mais crua e bruta do que no filme.
Termino então esse post ansiosa para ler as impressões do meu colegas, de uma história que parece permitir uma infinidade de reflexões.
Esse post faz parte do clube de leitura da comunidade de blogagem coletiva ENTREBLOGS, criada com o intuito de compartilhar nossas perspectivas sobre os mesmos assuntos. Veja mais em clube/072026.
Resenha publicada hoje, 17 de julho, em comemoração ao aniversário de Grenouille — se é que nos permitimos comemorar a existência de um assassino tão peculiar.
Notas
- Em Planeta dos Macacos o livro me marcou muito mais que o filme. Faz anos que li e até hoje lembro do choque que foi ler o final da história.↩
- Fonte Amazon — Livro disponível no Kindle Unlimited.↩
- Teoria fluidal me pegou muito na história e fui obrigada a pesquisar sobre pois delírio demais. Parece que tem base na vida real sim, sobre outras teorias malucas da época, mas que Patrick aproveitou isso pra dar uma viajada ainda maior. "[...] o autor Patrick Süskind a exagerou e a modificou para transformá-la em uma sátira literária ficcional." de acordo com a IA do Google.↩
