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18.7.26

Filho nos faz sair da nossa caixinha de segurança pessoal das formas mais variadas. Chega a ser engraçado pensar nas situações em que a gente se força a colocar para atender as expectativas e desejos dos nossos filhos. 

Dessa vez Sara queria que o aniversário dela fosse comemorado no colégio, com a turma dela. 

Particularmente, tenho pavor dessas interações escolares. Reunião dos pais? Eu me sinto naquele meme do como vim para aqui meu deus eu só tenho 6 anos. Um pouco daquela energia de não me sinto mãe e não me sinto adulta, um belo conflito de personalidade-estado-existência. A ficha não cai e as responsabilidades adultas e maternas cobram atitude da nossa parte mesmo assim. A vida como ela é. 

Se for puxar as minhas memórias de infância então, eu morria de vergonha em comemorar aniversário no colégio. Morria. Como as comemorações aconteciam mesmo assim, nunca vou saber se foram importantes no meu desenvolvimento por outras questões. Quem sabe que memórias eu teria dessa época se as comemorações não acontecessem, independente da vergonha. 

No caso da minha filha, tímida a ponto de não querer participar da apresentação de dia das mães — algo que conversei, tentou ensaiar mas não forcei quando achou melhor apresentar apenas pra mim em casa —, o aniversário parecia importante. Então lá fui eu entender as regras do colégio, organizar datas porque o aniversário cairia no recesso escolar, enfim, fazer a coisa acontecer. 

Nisso algumas preocupações começaram a pipocar na minha cabeça ansiosa. Sara iria gostar da decoração, mesmo a temática sendo escolhida por ela? As crianças gostariam do bolo? Deveria encomendar apenas brigadeiro ao invés de doces sortidos? Conseguiria fazer a comemoração acontecer respeitando o limite de 30min do lanche das crianças? As crianças gostariam do que colocamos dentro das lembrancinhas? Quase dava pra escutar minha ventuinha mental virando um acelerador de partículas. Fiquei tão lelé da cuca que fui lembrar de comprar os utensílios (pratinhos, talheres, copos, guardanapo) poucas horas antes da festinha. 

Que bom que mãe também é filha e também é nora. 

Se não fosse minha mãe e sogra ajudando a organizar as coisas lá no colégio, cortar bolo, registrar o momento, ajudar a servir, meudeus, eu acho que ia acordar n'outro plano. 

Fiquei ansiosa, ameacei travar quando a professora perguntou como queríamos cantar os parabéns, com as crianças junto, com as crianças sentadas, se faríamos fotos... eu não tinha pensado em nada disso, não tinha a menor ideia de como esses detalhes se desenrolariam. Então como uma adulta muito sensata e em pânico joguei a pergunta pras crianças. Jurei que a mesa do bolo ia cair quando começamos os parabéns, de tanto que as lembrancinhas balançavam e ameaçavam tombar na mesa, no meio daquela criançada animada. 

Como a minha tática deu certo, assim que assopramos a velinha, com a Sara naquele misto de alegria e vontade de voltar para o útero, fiz as crianças voltarem aos seus lugares perguntando se estavam com fome. É, jamais imaginei que ficaria tão preocupada com as expectativas não só da aniversariante como de todos aqueles mini humaninhos eufóricos. 

As professoras (são 3 naquela turminha) ajudaram a distribuir os pratinhos conforme eu ia servindo com os salgados sortidos, algo que amo comer mas que nem consegui tamanha a ansiedade que me bateu. Sara ainda muito envergonhada não me deixava sair do lado dela. Sogra cortando o bolo. Mãe registrando o momento, conversando com as professoras, com as crianças. 

Deu tudo certo. 

Sensação de alívio, missão cumprida. 

Pouco antes de irmos embora, depois de deixarmos o arco de balões no colégio para a alegria dos pulmões das professores — no dia seguinte teria homenagem as avós, que a Sara não queria participar, e graças ao arco seriam menos balões para elas enxerem —, uma parada rápida no banheiro com a Sara onde fui entrevistada por uma coleguinha dela muito desconfiada sobre eu ser realmente a mãe da Sara. A pequena investigadora talvez tenha achado que eu era irmã dela? Questões... 

Chegamos em casa exaustas e só então, mais calma, me atrevi a comer o que sobrou dos salgados. Brinquei com o novo quebra-cabeça das Huntrix que a Sara ganhou de alguma amiguinha enquanto ela pintava bobbie goods com a avó. Antes que déssemos o dia como encerrado Sara pegou no sono na cadeira da cozinha, tamanho o cansaço. 

Sobrevivemos. 

Sara teve sua festinha das Guerreiras do K-Pop. 

Quanto as minhas preocupações, bom... 

O bolo1 foi quase todo devorado, assim como os salgados. Podemos então concluir que as crianças gostaram. Já os brigadeiros foram ignorados, apesar de deliciosos, e boa parte dos 100 que sobraram montamos marmitinhas para os nossos vizinhos. Então alguém ficou feliz. E antes que você pense que é loucura talvez seja, ainda sobrou fácil uns 40 e nem sei como vamos dar conta de comer. Além de que eu ficaria super feliz de, em pleno sábado de manhã, ganhar marmita de brigadeiro de vizinho. Política da boa vizinhança, como diz o Toni. 

Não lembro da hora que saímos de lá, mas acredito que o horário foi respeitado. Crianças e professoras parecem ter aproveitado o momento. Sarinha, apesar da vergonha por ser o centro das atenções, foi feliz e isso que importa. 

Sinceramente, não achei que fosse me afetar tanto, apesar das preocupações etc, mas aparentemente toda aquela descarga de adrenalina era too much sim. Já no carro, voltando pra casa, senti a dor de cabeça piorar, a náusea, a falta de ar dando as caras. Precisei recorrer a minha querida dipirona e uns minutos em posição fetal até acalmar os ânimos. 

Pelo visto assim como Sara começa um novo ciclo, começarei eu se a psiqui concordar a viver o meu novo ciclo medicada porque no seco está, como diria Avril Lavigne, muito complicated.  

Só os deuses sabem que novas aventuras maternas me esperam e não pretendo ir de arrasta tentando permitir que a mini queen viva o extraordinário enquanto minha cabecinha se resolve sozinha. A gente faz o que pode com o que tem e com o que tenho estou podendo pouco. Ou podendo muito né, mas a que custo. 

Notas

  1. Em outro post comentei que o bolo seria feito por mim, mas no fim acabamos optando por encomendar (ainda bem).
15.7.26

Hoje, especialmente, foi um desses dias. 

Emocionalmente pavoroso. 

Achei que ia acordar, seguir tranquilamente com as minhas responsabilidades maternas antes do café da manhã, depois tomar meu café com calma enquanto lia as atualizações da estória que está em processo de construção para o BEDA. 

Inclusive, fui dormir animada com a ideia de preparar um post resposta para a semdomínio falando que super concordo, Kakashi Hatake é o máximo mesmo, enquanto aproveitava para falar que eu arrisco dizer gostar do Gojo na mesma proporção. Só que a animação morreu, dadas as circunstâncias, antes de virar um post resposta.  

Errei, fui moleque.

Dia começou tudo menos tranquilo. Aparentemente as responsabilidades maternas estão tendo que enfrentar um novo vilão essa semana e não está sendo fácil. Finalizei certa etapa da manhã completamente desnorteada, aos prantos. 

Os planos para o dia foram por água abaixo. Tal qual um troll foge da luz, me escondi no breu do meu escritório e fiquei aqui ruminando sentimentos densos demais. São dias e dias né? Cheguei a escrever um texto pavoroso, sincero demais até pra mim, e apaguei. Do texto deixei apenas o título e a figurinha que de vez em quanto me veste bem demais, mesmo que eu não fume mais há muitos anos.   

Consegui desviar a atenção desse poço de sentimentos enquanto me metia com html e css. As vezes só uma quebração de cabeça pra tirar o foco do que machuca. Depois de chegar no resultado que queria voltei para o meu pocinho de sofrimento, cheio de água com gosto de culpa. 

Agora, um pouco mais tranquila mas nem um pouco pronta pra uma próxima rodada, espero que o vilão me dê uma trégua pelo menos essa noite. Preciso de um tempo pra recuperar o fôlego — e quero meu ânimo resgatado para continuar meus projetinhos e falar das minhas baboseiras, poder ser feliz no simples.

Algumas batalhas a gente perde e sei que faz parte. Só é cansativo saber quais armas usar e ainda assim ser nocauteada tão rapidamente.  

Enfim, sinto que não falei nada com nada pra quem lê de fora #sorry, mas as vezes um desabafo serve só pra aliviar o peito de quem escreve enquanto ao leitor resta um caramba, foda ein e tudo bem. 

Talvez eu me inspire em Kakashi e procure a paz de algum jardim dos amassos (pensando agora se o livro ou outra coisa) ou finalize o dia assistindo mais de Jujutsu Kaisen para aprender com o Gojo a identificar qual o nível de dificuldade da maldição da vez, talvez não seja nível especial e eu só esteja dando peso demais as coisas. 

É, dias e dias. 

Tem dia que só no outro dia mesmo. 

10.7.26

Tenho pensado muito na minha menina. Não sei se é porque o aniversário dela de seis anos está por chegar nesses próximos dias, uma canceriana quase leonina seja lá o que isso possa significar aos entendedores de astrologia, ou porque ela tem me levado a loucura nesses últimos dias. Vai ver ela só está vivendo as grandes emoções do próprio inferno astral, sei lá. 

Minha vizinha ainda comentou certa vez, num desses dias em que achei que alguém chamaria o conselho tutelar: Sarinha é canceriana, ela sente muito as coisas e sente alto.  

Não é a toa que tenho comentado aqui um pouco o quão desafiador é educar um ser humano em desenvolvimento. Educar é difícil pra caralho. 

Só que dia desses tirei algumas fotografias dela que não saem da minha cabeça. Seja depois de um abraço apertado quando as coisas estão tranquilas ou depois das explosões emocionais de alguém que não aceita muito ser contrariada, essas fotografias me veem à cabeça. Olhando agora que foram fotografadas dia 4, no último sábado, parece que deu pra viver uma vida de emoções nessa semana. 

Nesse dia Toni parou para fazer a massa de pão e pizza, como faz toda semana. Na mesma hora Sara falou que queria ajudar e ele, por reflexo do cansaço ou sabe-se lá se gatilho da última retrucada dela, falou que não. Antes que aquilo virasse outros longos minutos de discussão, suficientemente calma no momento por não estar no olho do furacão, falei que deixasse ela ajudar, que desse um pedaço de massa e não se preocupasse com a roupa suja de farinha. 

Belo jeito de evitar o caos, mas nem sempre essa paz acompanhada de sabedoria apaziguadora me acontece. As vezes sou eu no olho do furacão sendo salva pela paz dele. 

A criança, pouco tempo depois já com vestígios de farinha no rosto e cabelo, me fez lembrar que as vezes criança só quer participar, quer ser útil, quer brincar junto dessa coisa de ser adulto. Tão divertido aos olhos deles, principalmente quando envolve fazer sujeira com as mãos. O que parece um grande problema quando você tem os minutos contados para algum compromisso, mas se carambolas for um final de semana tranquilo, pois que deixe fazer sujeira. 

Além disso ter garantido a calmaria do jantar porque, vale ressaltar, as vezes a frustração anterior vira gatilho para a frustração seguinte, ainda rendeu bons registros do momento e, arrisco dizer, boas memórias. 

Por alguma razão esses outros momentos de calmaria e gritaria da semana me levam novamente para esse dia. Quando percebo já estou com a galeria aberta no navegador pensando nas muitas coisinhas que fazem parte de quem é a minha menina. Esse furacão de emoções e vontades e opiniões, aprendendo a viver suas coisinhas enquanto os pais também estão aprendendo a equilibrar suas emoções, vontades e opiniões. 

Espero estarmos fazendo um bom trabalho. 

Ela parece feliz.

8.7.26

Sara precisava de calçado novo e avó quis presenteá-la. Deu três calçados fechados, escolhas da mini querida. Não é pouca coisa, a gente sabe que é muita coisa. Ela escolheu entre aquela loucura de opções, provou, pareceu genuinamente feliz e decidida. Pois bem. 

Corta para um dia de rotina de aula, aquele caos logo cedo porque a criança cismou que não gostava dos calçados e só queria usar um deles. Parei ali mesmo, antes daquilo virar um grande problema, e disse: você escolheu esses calçados, você provou e escolheu esses calçados, vovó gastou muito dinheiro nisso então você vai usá-los. Frustração. 

Dizem que os pais tem a obrigação de frustrarem seus filhos porque, se não o fizermos, o mundo vai fazer de qualquer forma. A diferença é que nós preparamos o espaço de frustração, de preferência acolhedor, em que frustraremos essas crianças e as prepararemos na medida do possível para o mundo. O mundo não terá tanto tato, como sabemos bem. Parece loucura né? Mas vem cá, você já viu um adulto que nunca se frustrou quando criança? Pois é. 

Antes que me coloquem na caixinha da mãe de bosta, podem ficar tranquilos que já me coloquei nesse lugar em muitas das ocasiões. Suspeito dizer que poucas as decisões que fazemos enquanto pais nos permitem o respiro de não passar por essa caixinha. Só que quanto mais vivemos esse evento, mais vacinados ficamos dessa culpa porque entendemos o propósito de muitas dessas escolhas. 

Nos momentos de desespero, e aquele grande sentimento de wtf eu tô fazendo tenta nos sufocar, lembro de uma frase que vi por aí: é, mas você não tem o meu filho. 

Quem diria que não há manual que se aplique a toda criança, família, realidade. As variáveis são tantas que seria loucura achar que colocar em caixinhas daria certo. 

Pois bem, voltando aos calçados.

Entrei no seguinte acordo com a criança. Com essa fartura de calçados, veja bem, ela teria que intercalar o uso deles. Usou o rosa hoje? Então amanhã escolhe outro. 

Diferente de nós adultos que podemos passar meses sem olhar pra um calçado e depois decidir que aquele é o calçado favorito da vez, com criança essa janela de escolha é absurdamente curta. Você pisca e o pé da criança cresceu, o calçado não serve mais. E assim, a avó tendo condições ou não para mimar a neta, eu me nego a achar normal um calçado de trezentos reais que ela escolheu e que serve não ser usado. Um calçado que ela vai usar por poucos meses. 

Não é porque podemos dar uma infância sem dificuldades financeiras para a criança que ela crescerá achando que a vida é fácil assim. Surpresa, não é. Alguém batalha, ou já batalhou muito como no caso da avó, para que hoje luxos sejam fornecidos. Isso debatendo apenas a ponta do iceberg. Talvez seja ainda muito cedo pra discutir as várias camadas de privilégio, capitalismo, a porra toda, para uma criança de cinco anos. Enfim. 

Enquanto demonstrava para a criança toda a firmeza e autoridade que pais precisam mostrar em determinadas situações, me peguei pensando porque afinal também estamos aprendendo se por acaso um dos calçados machucasse, fosse bonito mas ruim de usar, vai saber. São possibilidades que exigiriam reações diferentes. Não temos todas as verdades e certezas do mundo mas temos uma suspeita, aquele conhecimento adquirido enquanto filhos e enquanto pais. 

Só que nessa dela ter de intercalar, depois de aceito os termos e consequências, porque ela não ganharia mais presentes assim se não desse valor aos que ganhou tão facilmente, ela descobriu que amava os três malditos calçados. Ora, ora. Um dos que ela apontou mil problemas no calor da emoção, ela gostou tanto que numa outra semana queria usar todos os dias. Quem diria né. 

Acho que o mais difícil nessa coisa doida de criar e educar uma criança para a porra do mundo, é entender quando algo é de fato um problema, que seria o caso do calçado machucar e então a discussão seria diferente, ou se é só birra, porque no dia outras coisas a deixam frustrada, como querer continuar dormindo e precisar acordar cedo, e ela quer mostrar que tem opinião também, que também quer fazer suas próprias escolhas. Quanto pode uma criança de cinco anos escolher? Quanto é respeito e autonomia? Qual o limite que protege essa criança de virar um adulto mimado que acredita que suas escolhas são sempre superiores aos demais, ao mundo?

Porra de coisa difícil do caralho viu. 

Lembrei disso porque, depois alguns meses amando muito os seus três calçados e intercalando inclusive quais os favoritos da semana, hoje ela resolveu dar seu protesto logo cedo cismando com o calçado do dia. Diferente do dia zero dessa discussão, eu já sabia que o calçado não machucava e nem muito menos era odiado. Ela só estava frustrada, seja lá com o que porque, meus amigos, não dá pra descobrir todas as dores de uma criança nos 10 minutos em que ela precisa estar pronta pra sair de casa. 

Nesses 10 minutos que viraram longos 15 minutos — pra quem não sabe, psicologicamente isso demora mais que resultado de teste de gravidez — ela correu o risco de ter sua cabana desmontada. Sim, aquela que ela conquistou como cama da semana no final de semana com o acordo, porque apesar da autoridade tentamos conversar e acordar sobre muitas coisas (escolhas e consequências), desde que ela entendesse que regras de convivência também precisam ser seguidas. 

Ela tentou bater o pé, insistindo que o tênis da vez incomodava, chorou de frustração. Nessas horas, quando vejo que não adianta aumentar tom de voz porque a frustração de não poder escolher o que quer também sufoca, é o momento que ofereço o abraço. As vezes a frustração é tanta que ela não quer e precisa de espaço pra sentir as coisas, em outras o abraço é que acalma e a ajuda a entender que ela escolhe muito sim mas que também precisa ceder. Hoje, o abraço ajudou. 

Colocou o calçado chorando, mas colocou. Não teve sua cabana desmontada. Escolhas e consequências. 

Confesso. Pensei em ceder nesse meio tempo que parece uma vida? Pensei sim, porque na prática todo dia escolhemos quais batalhas vamos enfrentar. As vezes cedemos, as vezes não. Só que nossas escolhas também tem consequências. Ela entenderá melhor as dela se não ficarmos toda hora mudando as nossas. 

O raciocínio é até simples, se formos pensar. Se eu tento impor à ela algo que no menor enfrentamento dela irei ceder, naturalmente e não por maldade, ela entenderá que se enfrentar vai conseguir o que quer. Mas o mundo não cede a tudo né? Pois é. 

Enfim, fica aqui meus centavos de desabafo materno. Educar uma criança não é fácil. É uma grande tentativa e erro em que a gente tenta não errar muito para reduzir o máximo de danos que conseguir. Nem todos os danos serão aniquilados, acho que ninguém está livre disso por completo, mas a gente faz o que pode com o que tem. Hoje pude mais que em outros dias e isso por si já é uma pequena grande vitória. 

Pra você que me lê, entendo se você discordar. Sei que eu, enquanto era apenas filha e não mãe também, provavelmente leria com olhos de quem não foi salva de todos os danos. Lembraria, por exemplo, da calça que minha mãe achava bonita mas que me incomodava. Ela era linda mesmo, mas eu odiava aquela calça. Só que hoje, como mãe, lembro que muitas das frustrações vividas na infância, me ajudaram a viver as muitas frustrações da vida adulta. Entre danos e vitórias, sei que o saldo de vitórias é muito maior — e que, ainda assim, a caixinha da culpa ainda aterroriza a minha mãe. Sabe aquela fala que toda mãe já deve ter dito na vida, de que quando você for mãe vai entender? Pois é. 

Reflexões a parte, a minha nota de encerramento é: na próxima troca de calçado vai ser só um, pelamordedeus

Batalhas amigos, batalhas!

17.6.26

Ontem pela manhã fui para o quarto ler, tentar não ficar tanto na frente do computador, aproveitar o sol que bate logo cedo na cama. 

Li alguns poucos capítulos iniciais de A Canção dos Dragões Perdidos da Sarah A. Parker e fiquei me sentindo, não ironicamente, perdida em pensamentos em muitos momentos. Tudo bem que é a continuação de uma história já cheia de detalhes com uma construção de mundo diferente das romantasias no geral (e a minha memória do primeiro livro se perdeu aparentemente). Enfim, não era nem isso que eu ia falar exatamente. O ponto é, minha cabeça estava em outro lugar. O que não é necessariamente ruim.

Nesses últimos dias tenho estado com aquela sensação gostosa, que pode soar até meio tóxica pra quem me lê (perdão) e me vê sendo repetitiva, de gratidão à minha ordinária vida. Adoro soar contraditória quando na maior parte do tempo digo não ter muita paciência pra quem parece ser patologicamente grato o tempo todo, mas suspeito que não seja contradição sendo que os sintomas me parecem breves e estou sempre disposta a compartilhar reclamações. Grata pelo privilégio de poder ter juntado boas reservas, que me permitem escrever esse post com tranquilidade no meio de uma manhã de quarta-feira mesmo tendo contas a pagar. E falo privilégio porque é o que é, sem nem olhar muito longe sabendo que nem todo mundo pode fazer o mesmo, o reconheço porque em alguns muitos momentos do passado também não pude. 

Essa tranquilidade tem me permitido observar outras coisas da minha vida nesse momento. Sim, lá vou eu romantizar a minha vida mais um pouco. 

Algo que achei curioso de me dar conta é que por mais que eu goste muito de estar sozinha com as minhas coisas, também tenho achado estranho. Faz apenas umas quatro horas que excelentíssimo saiu com Sarinha e eu estou com saudades, achando a casa silenciosa demais. Não chega a ser um incômodo, porque aprecio muito os meus momentos de silêncio, mas tem sido curioso o quanto essas saudades tem se tornado mais frequentes. Gosto muito da minha família, sabe? 

Hoje cedo eu ia tentar o lance da leitura novamente, mas antes mesmo do sol dar as caras no meu quarto (e está fazendo um frio lazarento) eu notei que minha cabecinha continuava barulhenta demais (mesmo que com pensamentos bons ~ eles também fazem barulho). Lembrei que numa outra leitura que iniciei ontem a personagem tinha um diário e resolveu criar um blog. No meu caso, resolvi fazer o contrário e voltar a escrever em um diário. Lá fui eu abrir caixas porque ainda não desencaixotei tudo desde a mudança meses atrás para procurar meus caderninhos pautados. Achei minhas primeiras baquetas, o que não vem exatamente ao caso mas me deixou feliz, dois tesouros (livrinhos de caça palavras) e enfim meus caderninhos. 

Minha última anotação tinha sido quando Sarinha recém tinha feito um aninho, depois da anotação anterior de quando ainda estava grávida. Basicamente o hábito de escrever em diários é algo que tento retomar de tempo em tempo. Daqui um mês ela fará seis anos. Não sei vocês mas eu acho isso doido pra cacete. Isso parece tão importante quanto maluco e seguirei ficando muito chocada com a informação. 

Começando a rabiscar meus pensamentos para ficarem um pouco menos barulhentos, afinal preciso de espaço nessa cabecinha pra fazer outras coisas que também quero, me peguei pensando em como diabos a minha letra virou o que virou. Quando foi que a minha letra virou uma coisa ilegível? Agora estou genuinamente preocupada porque ainda ontem antes de dormir — a criança pode ficar com preguiça de conversar o dia fucking inteiro mas coloque ela para dormir e veja a mágica acontecer ~ a não ser que você queira muito dormir — Sarinha me pediu ajuda pra aprender a escrever letra PUCIVEL e tentando rabiscar no ar com ela me dei conta que nem eu lembro mais como se escreve letra cursiva (caso você não tenha entendido o que ela falou). Algo que ficou muito claro quando resolvi escrever no meu velho diário hoje cedo. Desastroso. 

O lado bom, veja bem, é que eu não tenho a pretensão de reler ele no futuro. Não conseguiria nem que eu quisesse. Ele cumpriu seu propósito, organizar o fuzuê que estava rolando na minha cabecinha a ponto de inclusive conseguir escrever esse post — que provavelmente não fará muito sentido pela forma que comecei e aonde estou chegando, como a maioria dos meus textos reorganizadores de pensamento. 

Agora posso pegar mais um café e voltar para a cama para ler meus livrinhos sem cair acidentalmente em Nárnia. O sol já bate na minha cama a essa hora, não tenho do que reclamar. No fone a playlist Fantasy Book Ambience para abafar o som de obra do vizinho (sem som de pássaros mas estou no modo #gratiluz então não vou reclamar). 

Aliás, me sentindo especialmente vitoriosa porque, para tomar coragem de tomar um banho nesse frio lazarento de 9ºC (hoje isso é muito frio sim, shhhh) resolvi fazer 30min de bike depois de alguns longos meses em situação de sedentária enquanto assistia Naruto (ou Naturo pra quem viveu esse momento). A ideia funcionou, tomei meu banho bem plena sem querer morrer (odeio passar frio no banho!!111!), e na sequência botei umas roupas pra lavar. Eu acho chique demais ter um quintal pra colocar roupa pra secar no varal, hihi. Meus dois centavos de funcionalidade porque estou me permitindo ser inútil de vez em quando. Não posso esquecer que me desligar do meu antigo trabalho foi para fugir de sucumbir a um burnout né amigos? 

Ah, me desejem sorte. Se a mini queen lembrar do rolê da letra pucivel quando chegar do colégio, precisarei pesquisar material de letra cursiva porque não lembro como diabos se faz um F maiúsculo e a mini querida é muito exigente.  

Acabei de pesquisar rapidamente e tem várias formas de fazer o F, se eu não fizer igual a profi dela estarei lascada. 

"Mas se eu falar não vou ficar pensando e me perguntando, que são coisas igualmente cansativas", disse Frodo. 

Em 2021 comecei a ler A Sociedade do Anel mas ainda sentia os efeitos do puerpério ou qualquer que seja a coisa que derreteu o meu cérebro. Travei em 50% da leitura muito irritada que demorou tudo isso para o Frodo sair do Condado, pelamordedeus. Breve desabafo a parte, resolvi voltar com a leitura essa semana e ainda ontem marquei esse trecho do livro. Reli agora ao abrir minha galeria do celular (tenho a mania de fotografar páginas de vez em quando) e bom, quem chegou até aqui acabou de ler o efeito de rever essa fotografia e outras coisas doidas da minha cabeça. 

5.6.26

Acho que eu fiquei acostumada com a rotina por tanto tempo — a gente precisa né, afinal vida adulta, trabalho, responsabilidades — que eu já cheguei a acreditar que era uma pessoa que funcionava apenas com rotina. Aquela coisa da previsibilidade que de fato me deixa, bom, menos ansiosa. 

Porém nesses dias em que me permiti não me programar para absolutamente nada, fui lembrando que não ter rotina o tempo todo também me faz bem. 

Em dias como hoje (uma sexta-feira pós feriado), em que Sara não tem aula, o excelentíssimo não trabalha e eu posso me dar o luxo de curtir o desemprego (porque é de fato um luxo no meu caso estar despreocupada nesse momento), não precisar olhar para o relógio é bom demais. 

Acordamos a hora que o corpo decidiu acordar, com o incentivo da Sara pra sairmos da cama em vez de enrolar na preguiça ainda mais. Tomamos um café da manhã com calma (ah como eu sentia falta disso). Conversamos sobre o almoço sem saber de fato que hora iríamos almoçar. 

É gostoso poder tomar um café da tarde porque deu vontade, sem me preocupar se eu já perdi o horário do café da tarde. Seguir o dia na mesa da cozinha lendo blogs porque hoje deu certo fazer isso (leia-se: estava com cabeça para). A sensação de que as vezes, estar no mesmo ambiente que eles, já nos torna presentes enquanto cada um faz as suas coisinhas, cada um curte a folga do seu jeito. 

Me joguei no sofá enroscada na filhota enquanto assistíamos um dos filmes do Jurassic depois dela acordar da soneca no meu colo. Colocar ela no sofá para continuar a soneca não deu muito certo dessa vez. Criança pode estar dormindo, mas o sensor delas parece apitar instantaneamente quando o pai olha para mãe com cara de opa vejo ai uma oportunidade de matar a saudade. É, quem tem filho sabe do que eu tô falando. 

A gente ri e segue curtindo o dia sem pressa, sem olhar para o relógio. O dia escurecendo pela janela e meu próprio estômago vai avisar quando for a hora de pensar na janta ou no lanche pré-janta, o que der vontade de roer. A essa altura a pequena humana, que a gente cuida cria mantêm viva, já fez algumas várias refeições. Não se vê fruta estragar nessa casa. 

Roupas de cama foram lavadas, outras roupas já secas esperam um destino melhor que a minha cama nessa momento. Uma cabana improvisada no meio da sala, brinquedos pra tudo que é lado. Comecei o rascunho de alguns posts, comentei em alguns blogs. Olhando para a minha casinha bagunçada, Sara palpitando nas escolhas do pai enquanto ele tenta jogar algo além de Counter Strike. 

Única exigência da Sara hoje é de assistirmos novamente o filme do "alinenígena" que apresentei pra ela ontem, Sinais. Assistimos duas vezes seguidas, hoje não sei quantas serão. A bichinha claramente mais corajosa do que eu quando criança que precisei tapar os olhos no cinema na cena da aparição em terras brasileiras. Eu ameacei me mexer e ela logo me repreendeu não tapa o meu olho

É, bom viver um dia (e vários outros) sem olhar para o relógio.

Encerro agora esse post ao som de Waka Waka da Shakira, a pedido da chefe dessa casa. Sarinha, obviamente.

21.4.26

Conversando com alguém sobre situações no trabalho que consomem o nosso carisma, me peguei mais uma vez pensando em que bem nos faria um pouco da despreocupação das novas gerações. 

De vez em quando eu penso nisso e hoje lendo um texto da Clayci (A nova relação com o trabalho e o que talvez a Geração Z esteja nos ensinando) me peguei pensando sobre isso novamente. 

Eu era alguém que criticava muito o desinteresse alheio nos meios corporativos e hoje me pego invejando sem dó a tranquilidade de quem se permite esse desinteresse. 

Chega a ser curioso, porque não muito tempo atrás essa mesma despreocupação me tirou completamente do sério. Como assim o querido não deu a mesma importância que eu dei para a tarefa? Ironicamente ou não, ninguém morreu porque a tarefa não saiu do jeito que eu esperava. O querido foi para casa bem e eu, por conta das minhas próprias expectativas, fui para casa completamente desgraçada da cabeça. POR QUEEE???!?!?!?!?! Porque aprendi a ser assim 🤡 Eu queria ser um pouco mais como o querido... 

Acredito que ser uma maluca trabalhando como se a vida fosse só o trabalho possa até ter me garantido alcançar algumas coisas mas, quem diria, não tudo o que o mundo promete para os esforçados. Afinal, a vida como ela é, dois pesos e duas medidas. 

Hoje, pagando a conta do que os excessos estão me cobrando, me pego pensando muito no meio termo, em encontrar o equilíbrio entre dosar a preocupação até onde cabe a preocupação e aceitar me despreocupar também. Um pouco daquela energia do se nenhuma vida depende disso na emergência de uma UTI agora, então calma, isso não é tão urgente assim

Perder menos tempo criando expectativas sobre quem e o que não temos controle, ter consciência que a gente ainda precisa andar conforme algumas regras mas principalmente pegar essas belas regras e escolher quais a gente manda para a casa do caralho

Não sei se já até comentei aqui mas outro dia caí num vídeo sobre burnout ou algo do gênero (meu algoritmo nem tenta disfarçar mais) e um dos comentários me pegou demais. No comentário a pessoa contava da vez que foi parar no hospital por uma crise de estresse, se não me engano, e uma amiga falou para ela algo na energia de: você sabe que isso só aconteceu porque você não manda ninguém se foder

Eu lendo o comentário: 🤡 

Sou uma pessoa muito curiosa num geral, uma fuçadeira. Isso para coisas que faço por hobbie mas principalmente no trabalho. Aquela ideia safada de nunca incomodar o outro. Apareceu uma dúvida, dificuldade? Eu vou fuçar o que tiver ao meu alcance antes de resolver perguntar para alguém. O lado bom de ser assim é que eu aprendo muita coisa. O lado ruim é dar peso demais às coisas, esperar que façam o mesmo e sofrer quando as coisas não saem conforme o esperado.  

Se eu sou fuçadeira no trabalho, vou esperar que o outro seja fuçadeiro também. O que significa que se a pessoa me responder um simples não sei ou fiz assim porque achei que era assim eu provavelmente vou entrar em combustão interna. Quem adoece com isso? Só eu mesma 🥲 

E o ponto aqui não é nem sobre quem está certo ou errado. Da mesma forma que, se pensar bem, não é nem algo estritamente geracional. Acho que o ponto é que a gente esquece muito fácil como que é se desimportar, se despreocupar. Se é que alguma vez a gente soube fazer isso. O problema é realmente seu? Quem realmente deveria, está preocupado? Então... 

Aprendemos a viver sempre na velocidade 5 do créu, entregando sempre 500% de si — porque deus me free não dar o meu melhor (risos nervosíssimos) — pra no frigir dos ovos não nos garantir o retorno esperado nem o prometido.  

Outro dia apareceu o vídeo de uma psicóloga: 

— Mas doutora, se eu não fizer o barco afunda.

— Deixa afundar... 

Isso vale pra tudo na vida mas pensando no ambiente de trabalho, se o outro que não se importa tanto parece seguir a vida com mais leveza e eu que me importo demais sigo a beira de um colapso, não seria melhor achar um meio termo nisso? Dar menos peso as coisas? 

Além de que vale lembrar que quem entrega 80% do potencial dá sempre a perspectiva de que pode melhorar, certo? Nossa ele é tão esforçado... Já quem entrega 500%, quando entra em colapso e passa a entregar 100% vai ter o rendimento questionado. As ironias da vida, não é mesmo? 

Ai eu vou reclamar de quem leva a vida com mais despreocupação? Vou não, louca sou eu por dar peso demais as coisas erradas. Não adianta dinheiro na conta se ele só servir pra pagar pelos problemas de saúde que você ✨ conquistou ✨ dando tudo de si (e mais um pouco) no trabalho né? 

Como diria Avril Lavigne, complicated

Enfim, provavelmente essa pauta daria pano pra muita manga mas por hoje é só. Só queria aprender a ser mediana em certas áreas da minha vida para poder ser excepcional nas que realmente importam. 

Nota 〰️ Aprender também a mandar as pessoas se foderem